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Ex-jogador da NHL Dan Carcillo luta por melhor proteção contra concussões, educação para jogadores

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Ex-jogador da NHL Dan Carcillo luta por melhor proteção contra concussões, educação para jogadores

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Dan Carcillo, foto de Bruce Bennett/Getty Images
Texto original disponível em: 
Dan Carcillo’s NHL career ended after concussions. Now he wants the league to better protect players from the same fate  (21/12/2018) | SB Nation 

O bicampeão da Stanley Cup chama a atenção da NHL por falhar em proteger seus jogadores e educá-los sobre os riscos de traumatismo craniano.

Dan Carcillo se aposentou da NHL três anos atrás, aos 30 anos. Durante sua carreira de 9 anos, ele foi um dos “brigões” mais notáveis no hockey. Você o amava quando ele estava vestindo a camisa de seu time e amava odiá-lo quando não vestia. Mas agora o jogador que levou nove suspensões na carreira está tentando fazer um impacto diferente. Ele está divulgando os riscos das concussões e convocando a NHL a fazer mais para proteger e ducar seus jogadores.

A NHL chegou a um acordo preliminar não-coletivo em novembro em um processo levantado por mais de 100 jogadores aposentados, incluindo Carcillo. O processo acusava a NHL de negligência no tratamento de lesões na cabeça e também alegava que a liga omitiu informação sobre os riscos a longo prazo de traumtismo craniano associado à prática do hockey. O acordo incluiu pagamentos que não poderiam, ao todo, exceder U$18,92 milhões, mas não exigiu que a NHL admitisse responsabilidade por nenhuma acusação dos denunciantes. Carcillo disse que vai optar por se reirar da ação para seguir em sua luta por responsabilização.

De Brigão a Porta-voz

A missão de mudar a maneira como o mundo do hockey e o público em geral pensam sobre concussões, traumatismos cranianos, e Encefalopatia Traumática Crônica (ETC) é pessoal para o bicampeão da Stanley Cup.

Começou em 15 de fevereiro de 2015 quando Steve Montador faleceu aos 35 anos, três anos após ter sido afastado de um carreira de 11 anos na NHL. Montador e Carcillo se tornaram colegas de time em Chicago em 2011 e os dois se aproximaram ao longo de lutas contra o vício. Carcillo reconhece o papel de Montador ajudando a viver uma vida sóbria e o considera seu melhor amigo no hockey. A presença de ETC foi descoberta postumamente em Montador pelo Canadian Sports Concussion Project. Ele foi o quinto ex-jogador da NHL a ser diagnosticado.

“[Ele é] a razão pela qual eu sou um porta-voz,” disse Carcillo à SB Nation. “O dia em que eu recebi a ligação em 15 de fevereiro, foi um dia antes de um jogo. Meu telefone estava tocando sem parar e meu filho tinha nascido em novembro, então eu estava preocupado que fosse algo relacionado a ele. Quando eu atendi era uma amiga e ela estava chorando histericamente dizendo que Steve tinha nos deixado.”

Apenas um mês após a morte de Montador, Carcillo jogou o que teria sido sua última partida antes de ser afastado pelo resto da temporada após ser diagnosticado com sintomas de concussão. Em abril de 2015, ele publicou um vídeo emotivo na The Players’ Tribune falando sobre o falecimento de seu amigo.

“Quando você tem uma concussão, e você passa por isso, é muito sombrio,” Carcillo diz no vídeo. “Eu recentemente tive uma. Eu caí numa calmaria, numa depressão, especialmente depois de Monty falecer.”

Em setembro de 2015, Carcillo anunciou sua aposentadoria na The Players’ Tribune. Nesse texto, ele anunciou que estava fundando a Chapter 5 Foundation ao lado de sua esposa, Ela, para ajudar na transição de jogadores à vida após o hockey. Sua transparência sobre o assunto chamou a atenção do esporte. Mais de três anos depois, ele segue com a iniciativa.

2015 NHL Stanley Cup Final - Game Six
Foto de Bruce Bennett/Getty Images

Em maio de 2018, Carcillo prometeu seu cérebro ao Carrick Institute, uma instituição que ele afirma ter salvo sua vida duas vezes, para estudo mais aprofundado sobre as consequências de traumatismos cranianos. Um mês depois, a The Players’ Tribune publicou um vídeo em que ele discutia sua crença de que a NHL está falhando para com os jogadores ao não incorporar todas as opção possíveis no tratamento de concussões. Seu médico aontou ao The New York Times em novembro que Carcillo sofreu sete concussões diagnosticadas durante sua carreira. Durante esse tempo, seu feed no Twitter tem se enchido de ativismo por tratamento de concussões e conscientização sobre saúde mental, bem como letras de músicas, sua opinião sobre suspensões, e outras notícias da NHL.

“O tratamento está disponível e você pode se otimizar,” Carcillo disse quando questionado sobre a mensagem que ele espera transmitir. “Isso pode salvar a sua vida.”

Responsabilização

Poucos meses após seu primeiro depoimento publicado na The Players’ Tribune, Carcillo se juntou à lista de jogadores da NHL processando a liga pelas lesões cerebrais sofridas durantes suas carreiras como jogadores e pela falta de avisos quanto ao risco de traumatismo craniano.

“Eu era responsável pelas minhas ações na liga — se eu me atrasasse ou se não jogasse de acordo com as regras eu era suspenso, multado, e eu aceitava. Eles me responsabilizavam. E agora isso é tudo o que eu estou tentando fazer [com] esses caras, que são responsáveis por mentir para nós.”

A NHL introduziu um “Protocolo de Avaliação e Controle de Concussão” para os times seguirem antes da temporada 2016-17, mas Carcillo não foi o único que o achou inadequado. Destinado a ajudar os times com educação, teste, identificação, avaliação e controle das concussões, [o protocolo] tem sido avaliado desde sua implementação. Entre as deficiências percebidas no sistema destacam-se o uso de olheiros nas arquibancadas para identificar jogadores demonstrando sinais de traumatismo craniano, o modo como exames para determinar se um jogador está pronto para voltar à ação podem ser manipulados, e a falta de instrução atualizada no que diz respeito aos impactos a longo prazo do traumatismo craniano, incluindo ETC.

“Eles podiam ter nos mostrado uma apresentação de slides sobre os riscos de levar um soco na cabeça sem luvas se é para os que gostam de brigar,” Carcillo mencionou mesmo as mínimas coisas que ele acredita que a liga poderia ter feito pelos jogadores entrando na liga. “Eles podiam ter mostrado às superestrelas um vídeo do Crosby sofrendo aquelas concussões.

Pittsburgh Penguins v Buffalo Sabres
Foto de Kevin Hoffman/Getty Images

Outra questão que frustra Carcillo quanto ao tratamento da NHL para com jogadores vítimas de concussões – e uma que foi levantada durante o processo – é a forma perigosa como medicamentos são prescritos aos jogadores pelos médicos. Jeffrey Kutcher, um neuropsicoólogo que já tratou jogadores da NHL com problemas relacionados às concussões e prestou consultoria à NHLPA, afirmou que ele já viu casos em que antidepressivos foram receitados a jogadores da NHL; amantadina, uma droga que Kutcher diz ser normalmente administrada a pacientes em condições como de esclerose múltipla ou Parkinson; e em casos mais raros opióides para tratar sintomas de concussões.

“Uma vez que você vai por esse caminho,” Carcillo disse, “é realmente repugnante, você sabe, a maneira como eles tratam seres humanos, a maneira como tratam crianças.”

Durante seu tempo como comissário da NHL, Gary Bettman tem se recusado a admitir qualquer ligação potecial entre hockey e o efeito a longo prazo de lesões na cabeça que o jogo pode causar, incluindo ETC. Enquanto isso, diversos grupos de pesquisa — incluindo a Universidade de Boston, o Instituto de Pesquisa de Lesão Cerebral, e o Instituto Nacional de Saúde — têm conduzido estudos que mostram a conexão entre esportes de contato e ETC. A Universidade de Boston e o Instituto de Pesquisa de Lesão Cerebral, entre outros, têm trabalhado com o hockey especificamente, o que inclui a examinação de cérebros de ex-jogadores falecidos da NHL.

Ainda em abril deste ano, Bettman disse durante uma entrevista de rádio que cientistas “não têm evidência suficiente para chegar a nenhuma conclusão” de que hockey e ETC estejam relacionados. Bettman respondia a uma questão sobre a pesquisa sendo conduzida na Universidade de Boston pela neuropatologista Dra. Ann McKee. Ela respondeu seu comentário, destacando que ele citava uma conversa de 2012 quando a amostragem do estudo era baixa. 

“No entando, é uma afirmação equívoca do Sr. Bettman de que nós não chegamos a nenhuma conclusão,” ela disse, via TSN. “A evidência claramente sustenta que ETC está associado com a prática do hockey no gelo. Desde o encontro com o Sr. Bettman em 2012, a equipe de pesquisa da VA-BU-CLF [Veterans Affairs-Boston University-Concussion Legacy Foundation] identificou ETC em mais jogadores de hockey, incluindo quatro jogadores amadores, dos quais nem todos haviam tido uma exposição significativa à brigas. Isso fornece evidência de que a exposição regular à impactos na cabeça de jogadores de hockey pode ser associada com ETC.”

Para Carcillo, não pode haver mudança significativa até que a conexão entre o hockey e ETC seja reconhecida pela liga e que os riscos a longo prazo de lesão cerebral sejam explicados a seus jogadores.

A Associação Americana de Neurocirurgiões define uma lesão intracraniana como um “golpe ou abalo na cabeça ou uma lesão incisiva na cabeça que perturba o funcionamento normal do cérebro. O traumatismo cranioencefálico (TCE) pode resultar de uma batida repentina e violentana cabeça, ou de um objeto que adentra o crânio e o tecido cerebral.”

Carcillo olha para o hockey e vê riscos por toda parte no gelo.

“Isso é uma tacada no rosto, uma torção do tronco encefálico, um disco no rosto, seu dente é nocauteado, um golpe forte no corpo, um check inocente que não é tranco muito forte,” ele disse.

As frustrações de Carcillo se originam no fato de que todos esses riscos não são divulgados para os jogadores.

“Tudo isso que eu aprendi deveria ter sido dito a mim,,” Carcillo continua. “Nunca foi, e é aí que meu problema começa. Você está colocando a vida das pessoas em risco.”

Mudando a Cultura

Carcillo se acanha ao compartilhar a história a seguir, mas também fica irritado. Como jogador, ele sabia como manipular o teste ImPACT – a avaliação do funcionameno cerebral utilizada para determinar quando um jogador podia voltar ao gelo após sofrer uma concussão. De acordo com Carcillo, o segredo era ir mal no teste durante o training camp que seria usado como base de comparação durante a temporada.

“O sintoma número um de uma concussão é se sentir confuso ou devagar,” ele disse. “Então o que você faz? Você já viu o teste, você o viu todos os anos. Você sabe que vai estar um pouco fora de si ou devagar, então você bomba no começo do ano de propósito de modo que você consiga passar se tiver alguma lesão. Dessa forma, você consegue voltar mais cedo.

Seja motivado por um caráter de jogar apesar de tudo ou por medo de perder o emprego enquanto está fora do gelo, tentar voltar cedo demais ou sub-relatar seus sintomas de concussão é prejudicial ao futuro dos jogadores. A opinião de Carcillo é de que os médicos das equipes não são confiáveis para fazer dos interesses dos jogadores uma prioridade quando o assunto é prazo de recuperação.

“Essa narrativa é tão velha e cansativa,” Carcillo disse. “Contando às crianças e as convencendo de se colocarem em risco — promovendo violência e golpes e brigas, e queestá tudo bem em jogar com dor. Para mim, sim, jogar com dor, sacrificar seu corpo como um atleta faz parte, mas não deveria ser divulgado como tal.”

Jogadores da NHL têm sido retratados e promovidos como guerreiros por jogarem mesmo machucados. Patrice Bergeron foi exaltado após ter jogado com um ombro deslocado, cartilagem rompida e uma costela quebrada que perfurou seu pulmão durante a Final da Stanley Cup de 2013. Joe Thornton, segundo seu técnico, foi corajoso por jogar com o LCM e o LCA rompidos durante os playoffs de 2017.

Na opinião de Carcillo, que passou por cinco times durante sua carreira, a visão ultrapassada de que se deveria jogar apesar das lesão física também faz com que falar sobre saúde mental seja um tabu nos vestiráios.  

“[A palavra] ‘concussão’ nunca foi usada, nem mesmo pelos médicos, ele afirma. “Saúde mental nunca é discutida,” Carcillo disse.

Carcillo passou a se sentir desconfortável sendo aberto sobre questões de saúde mental durante sua carreira depois de conversar com um especialista em saúde mental providenciado pelos Blackhawks. Ele diz depois ter descoberto “pelas más línguas” que a diretoria foi informada da conversa. Carcillo não especificou quais informações podem ter sido compartilhadas, mas deu sua opinião sobre o impacto de uma dinâmica como esta.

“Esse é o estigma por trás da saúde mental,” ele disse. “Quando você sai em busca de ajuda — principalmente em um trabaho em que você precisa ser visto como mentalmente forte, um guerreiro mental, um assassino mental — você tem ansiedade ou depressão, e Deus o livre você conta para alguém, e aí eles quebram sua confiança assim. Isso abre um mau precedente para outra pessoa se abrir depois. Quando na realidade, abrir-se e tirar aquilo do peito te deixa mais focado individualmente para fazer o seu trabalho no gelo — então isso na verdade te faz um atleta melhor, então os caras não precisavam ter medo disso.”

Enquanto jogadores incorporam a mentalidade de guerreiro da NHL, Carcillo vê a liderança da NHL como o grupo que pode catalizar uma mudança significativa.

“Você precisa entender quem está dirigindo a NHL. Precisa dar uma olhada em Colin Campbell, Gary Bettman, Bill Daly, and os caras na [Associação de Jogadores],” Carcillo disse. “Tudo isso é velha guarda, clube dos veteranos, uma mentalidade ultrapassada de que ‘se você não é forte, você é um você-sabe-o-quê’ e esse ‘oh meu Deus, você está machucado então nós podemos jogar machucados’ e ‘você é um guerreiro agora, obrigado por colocar seu cérebro e corpo em risco pelo bem do time.’ F***-se isso.”

No mesmo dia do anúncio do acordo da NHL com os ex-jogadores, Bettman foi introduzido ao Hall da Fama como um builder.

“E mais uma trama para tirar o seu pensamento do que está realmente acontecendo,” Carcillo disse sobre a introdução de Bettman ao HHOF, “e o que está realmente acontecendo é que a NHL está colocando seres humanos em uma posição muito, muito ruim por não tratar traumatismos cranianos.”

Enquanto a NHL ainda não aceitou que existe uma ligação entre hockey e os impactos a longo prazo de traumatismos cranianos, para jogadores como Carcillo e Montador, os efeitos são muito claros para se deixar passsar. Esta falta de aceitação, junta à crença de Carcillo de que a NHL não tem feito o suficiente para educar e assistir seus jogadores sobre lesões na cabeça, levou a consequências que ele acredita que devem pesar na consciência da NHL. “É simples. Se você olha para o passado, pode ver que eles mataram pessoas.”

A NHL não respondeu ao pedido da SB Nation por comentários.

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